BUDISMO COMO UMA NOVA FORMA DE ATUAÇÃO
PARA UMA ÉTICA MUNDIAL E BRASILEIRA
Flávio Marcondes Velloso
"Perguntarmo-nos para que serve a Iluminação
ajuda-nos a questionar o que estamos a fazer
e o porquê de o fazermos. Não podemos concordar
com os que dizem que, no Budismo, o
importante é esvaziar a mente e não pensar. É isso que torna possíveis
as ditaduras e toda forma de exploração e desequilíbrio do Universo.
Pensar é importante."
(David Brazier, in Dharma Life Magazine)
Difícil
compreender o Budismo como fenômeno social, para além de filosofia e
religião, no sentido profundo de nos religarmos a nós mesmos e ao
fundamento último de toda natureza, em busca de um saber superior, de
que expressa Ricardo Sasaki em sua obra "O Caminho Contemplativo", para
uma compreensão mais universal das responsabilidades do caminho búdico?
Difícil aceitar o alargamento dos limites da prática budista em sua
relevância inseparável do comprometimento social? Difícil ativar as
demandas respeitantes ao status quo da Terra em uma visão mais
revolucionária do Budismo? Os budistas atuais não terão a capacidade de
regenerar as suas tradições espirituais, em suas próprias escolas, em
suas próprias sangas, em prática do lado exterior dos muros que criamos em nós mesmos?
Sua
Santidade o Dalai Lama fala em uma "conduta ética positiva", no sentido
de que uma revolução se faz necessária. Não uma revolução qualquer, mas
espiritual. Não espiritual como solução religiosa ou filosófica, mas
pela responsabilidade que temos, que é de todos nós, em face da vida na
Terra e, mais do que o reduto da vida na Terra, em face ao próprio
Universo a que estamos todos inseridos.
Nós somos o reflexo do mundo. Como está o mundo? O que nós
próprios temos projetado nele enquanto seres ligados entre si e
dependentes desse mesmo todo não dissociável? Ensina Sasaki que "isto
tem a ver com responsabilidade universal por todas as coisas. O que se
reflete pelos dez cantos do Universo. O pecado, ignorância, de um,
mancha o resto, como uma lâmpada que, quando acesa, ilumina todo o
quarto escuro".
No aqui e agora que é o que importa, o que fazemos? O passado
servindo para o lixo no coração, o futuro, para o lixo na mente, o
presente, para a cura e libertação de ambos. Não perdendo de vista que o
passado e o futuro são o presente, aferindo daí o tamanho da
responsabilidade de cada um consigo mesmo, com todos e com o todo, no
âmbito de uma ética socialmente comprometida, em atitude que pode mesmo
mudar o mundo. Aliás, mudar para melhor não há outra atitude, senão
mudando a nós mesmos, conscientes de que não se alcança sabedoria, não
se alcança iluminação, no contexto a que fomos lançados, em nossas
presentes manifestações de vida, se descurarmos da compaixão.
Podemos
dizer que, nesses tempos chamados modernos, fora da compaixão não há
iluminação. Do contrário não estaríamos aqui. A compaixão no exercício
prático da ética para com tudo e para com todos, nos preceitos basilares
de um budismo lúcido, mais do que contemplativo, levando a alcunha de
budismo engajado, i.é., com responsabilidades sociais. Ao extremo, não
havendo responsabilidades sociais, não havendo engajamentos, não
havendo amor universal, não se pode pensar em budismo atual, que vai
especialmente de encontro às intenções originais do Buda histórico, em
paradigmas frente às demandas, enormes e graves, do mundo contemporâneo.
Pensamento, fala e ação adequados em benefício de quê? Em benefício de
quem? A resposta singular não estaria consentânea aos desafios
presentes. Clama por ser plural.
Lembra Monja Isshin, em "A vida
compassiva", sua recente publicação, que mesmo a compaixão ainda não é
tudo, embora um dos quatro estados sublimes, deve estar aliada à prática
do "amor bondade, da alegria altruísta e da equanimidade", em sincera
interatividade e sinergia.
O Budismo pode ser um processo de cura para as doenças do mundo,
uma vez posto em exercício diário na relação e condução de nós
próprios, harmoniosamente com o externo. Nós somos o que fazemos e o que
fazemos tem resultados. Portanto, uma nova forma de atuação para uma
ética mundial e brasileira começa necessariamente dentro de nós, mas não
para em nós, não pode parar. O Budismo é compatível com a ciência, que
não tem fronteiras, o Budismo é movimento, não obstante paradoxalmente
contemplativo.
No Budismo não temos o direito de transferir nossas
responsabilidades a seres divinos ou forças metafísicas. O sagrado é a
luz búdica que está do lado de dentro de cada ser pronta a conectar-se
no universo do amor, o amálgama que possibilita, em continuidade
infinita, a impermanência do que não se cria nem se perde, na certeza de
Lavoisier de que tudo se transforma. O Budismo pode transformar o
mundo, a partir do instante que transformarmos a nós e não nos
permitirmos mais a passividade, a complacência, a omissão, simplesmente.
O mundo demanda lideranças conscientes, anônimas e declaradas, em todas
as searas das atividades humanas. O treinamento pessoal e a intervenção
global, comunitária, devem ser concomitantes, complementares. Sabedoria
guardada não é sabedoria. O grande, o maior mosteiro budista é a
humanidade inteira.
É lá onde estão os desafios, que permitirão a nossa
superação. É lá onde atingiremos a nossa cura e a nossa liberação. Por
isso o mundo existe, exatamente para a nossa cura e para a nossa
liberação, como partículas que vão ao todo. Mas sem ir à humanidade
inteira, sem ir a todos os seres, sem ir a todas as espécies, sem ir a
todos os reinos, sem ir a todos os mundos, sem ir a todos os universos,
não há cura, não há liberação. Nós somos amor universal, nós somos
física quântica, e sem uma ética minimamente consciente, passamos a não
ser nada. Menos do que nada, pois estaremos comprometendo o todo com uma
postura negativa, agravante e sempre refletora do que está aí no mundo.
O mundo externo refletindo o mundo interno. Não há como ser diferente.
Onde estão as ideologias mundanas? Para que serviram ou servem
as revoluções igualmente mundanas? Qual o sistema atual para a salvação
do planeta e de seus diversificados habitantes? O Budismo deve servir
para alavancar a transformação, tanto aos pobres e oprimidos quanto
possibilitar a cura aos poderosos e opressores, por sua reforma
interior. O Budismo deve se fortalecer como instrumento de transmutação
no concerto das nações e, por conseguinte, na jovem democracia
brasileira. Temos assistido, nesse país abundante de tudo, como no resto
do mundo, ao crescimento de representatividades outras, que acabarão
por imprimir uma nova cara para a nossa sociedade e para a comunidade
internacional. Onde estão os budistas?
Não sabemos mesurar a força de
edificação de virtudes do Budismo. Não percebemos a mudança consciente,
discernida, pacífica, amadurecida, profunda, respeitosa, solidária,
fraterna, compassiva, competente, capaz, que ele pode oferecer ao mundo.
Ainda somos tímidos nesse tocante. Todavia, onde não estamos, todos os
demais estarão, obviamente sem a plenitude que o Budismo propicia. O
Budismo tem servido para o bem-estar de quem?
Enquadrar
o Budismo não é bom, exceto para o sistema. Sidarta Gautama foi um
revolucionário, na acepção mais pura do termo. Ele não ficou sentado
somente, e muito menos, encastelado. Também caminhou, também foi de
encontro à prática de uma nova liderança social, mostrando que o Budismo
é um meio, uma nova forma de atuação para uma ética mundial e, no
contexto do artigo, brasileira. Todos os tipos de corrupção, no Brasil e
no mundo, serão combatidos eficazmente, no prisma budista, se
combatidos em nós, em um primeiro instante e, logo em seguida,
oferecido, ao nosso país e à comunidade mundial, o resultado de nossa
mudança. Quaisquer que sejam as instâncias de nossa atuação, o Budismo
será sempre um fator de transformação positiva.
O mundo e o Brasil
carecem de mais Budismo e, por conseguinte, de mais budistas socialmente
comprometidos. Na mão de quem têm estado a humanidade e a Terra? Quando
descruzaremos literal e efetivamente as pernas? Estamos felizes com a
sociedade mundial e brasileira? Elas só existem para ser transformadas.
Vamos dizer que o Budismo não deve se ocupar delas?
Continuaremos a
colher os frutos de nossa quase inação global e brasileira, embora
conscientes. Sofrendo conscientes, porque quase nada nos dispomos a
realizar, em proporção matemática daquilo que deixamos de edificar,
quando deveríamos e, se deveríamos, tínhamos que concretizar. Salvo
honrosas e emblemáticas individualidades e ou sangas.
Na verdade, no amor compassivo, na paciência sábia, na
tolerância fraterna, na capacidade de perdoar e de assumir
responsabilidades, no contentamento harmonioso, pacífico, justo,
solidário, no desenvolvimento de projetos externos e no nosso próprio,
asseguraremos uma nova forma de atuação para uma ética mundial e
brasileira. O que fazer com a aliança dos países ricos, ricos pela
exploração do resto do mundo e do planeta? O que fazer com as nossas
classes dominantes brasileiras, dominantes, grosso modo, pela não
solidariedade aos demais? Como será o Budismo? O que nos ensinará por
nossa responsabilidade universal? Sua Santidade adverte a necessidade de
uma ética igualmente de contenção, de virtude, de compaixão e
socialmente sem limites, sem fronteiras. Onde estamos e onde não
estamos, geográfica e ou politicamente.
Certos de que o tão comentado "fim do mundo" não será mais do
que o começo de um novo tempo, cuja senha de chegada e de partida não é
outra que o amor universal na prática quotidiana, em todas as suas
nuances e implicações construtivas, como nos tem sido facultado desde
sempre, assim como era no princípio.
Terminamos com Aung San Suu Kyi, ao professar com a força da luz
que carrega, que "o paraíso na Terra é um conceito que está fora de
moda e poucas pessoas acreditam nele ainda. Mas podemos, sem dúvida,
tentar tornar o nosso planeta um lar melhor e mais feliz para todos nós,
construindo as residências divinas do amor e da compaixão, nos nossos
corações. Começando por esta expansão interior podemos prosseguir para a
expansão do mundo exterior com coragem e sabedoria". Mais uma líder da
não violência e da construção do Darma na sociedade dos homens, forte
paradigma do que estamos a tratar. Ainda tardará muito o encontro do ser
humano animal com o ser humano divino que habita cada um de nós?
O tempo é inexorável. Mãos em prece são aquelas que trabalham
unidas. Unidas na atuação também social, para uma ética transformadora,
nova, regenerada, no Brasil e no mundo. O que faltaria para a criação de
um Partido Budista Brasileiro, sinalizando didaticamente ao mundo, ou
para ingressarmos no Partido Verde, de forma coesa, por exemplo?
Do lado
de fora é que não conseguiremos mudar o que hoje nos causa mal estar no
cenário brasileiro e mundial. É imperioso intensificar, em qualidade, a
realização social de tudo aquilo que entendemos adequado e não mais
permitir, por contemplação, complacência ou omissão, que se realize
aquilo que o Budismo claramente aponta como inadequado, tanto na
comunidade internacional quanto em nosso próprio país, carecedores de
mais práticas valorosas que somos, lá e cá, embora tais e tais
iniciativas em curso, tão louváveis quanto isoladas, limitadas em si
mesmas. Olhemos para dentro e não só. No horizonte, o venerável Thich
Nhat Hanh.
Flávio Marcondes Velloso, escritor, professor, membro da União
Brasileira de Escritores, do Instituto Pimenta Bueno da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo, da Associação de Direito e
Economia Europeia da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, fundador do Partido Budista Brasileiro, uma referência moral, virtual, autor de "Direito de Ingerência por Razões Humanitárias em Regiões de Conflito", "Tribunal Internacional de Justiça. Caminho para uma Nova Comunidade", dentre outros. Blog http://fmarcondesvelloso.blogspot.com . Endereço eletrônico flaviomarcondesvelloso@gmail.com . In Triptaka, Revista Oficial do "Colegiado Buddhista Brasileiro", 2011, então membro do mesmo.